Coisas que vêm à cabeça e vão ao vento.


























 
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Crônicas escrotas de um velho punk
 
Sábado, Outubro 21, 2006  



Universo paralelo

Porra, me lembro do dia em que aceitei um emprego na Philco. Assessor de propaganda. Era uma função onde a gente, através de visitas aos revendedores da região norte e parte do nordeste, anotava o que um diretor, ou chefe, sei lá, de compras nos falava de como se comportavam os clientes daquela loja. Nos reuníamos em SP, pelo menos, uma vez por mês - e eram generosos: nos davam uma semana de SP.
Na minha primeira viagem à SP pela Philco, para a primeira reunião, resolvi que deveria maneirar nas indumentárias.
Pensei: Quanto mais simples, melhor. Então a fórmula era jeans, All-Star e uma camiseta sem nada escrito. Se bem que veio a idéia de que a camiseta era simples além da conta. O que seria mais sério? Porra, uma polo. Vermelha. HAHAHAHHAHAH.
Os diretores e chefes e veteranos esperavam pelos novatos. Eu e mais três. Cheguei atrasado, só pra variar; os três já tinham chegado. Fui percebendo a roupa de todos. Paletó.
Eu tive a sensação de fazer cocô na calça. Mas foi só a sensação - que é bem pior; você fica pegando na bunda pra ver se era verdade. Se fizer cocô de verdade, já sabe que a "merda está feita" e relaxa.
Na minha frente, ocupando quase toda a porta dupla, da sala de reunião, uma réplica do Yelt, o homem das neves, sacou?
Era um português - lógico também que tinha sido batizado Manoel - imenso e que tinha sido diretor da Ford nos Estados Unidos durante 30 anos.
Ele sem saber o que falar, apoiou os dois capangas, digo, os dois braços sobre meus ombros e disse:
- Puxa, rapaz... por um momento lembrei da minha adolescência...
A secretaria dele, daquelas paulistanas de 40 anos, meio roliça, completa:
- Fora de linha... (era como se falava na fábrica para os aparelhos ultrapassados)
Seu Manuel virou-se rápido para ela e, meio ríspido, perguntou:
- Você está dizendo que estou fora de linha?
Ao que ela se defende:
- Não é o senhor... é êle! E aponta pra mim.
O português se vira pra mim, sai da frente, aponta o interior da sala e diz:
- Vamos entrando... Seja bem-vindo, Fora da Linha...
E assim foi o tempo que durou.
Descobri em pouco tempo que o portuga se vingava da gente, brasileiros, colocando apelido em todo mundo do departamento.
O meu era bem agradável se um dia fizessem uma chamada.

Sábado, Outubro 21, 2006

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